terça-feira, 11 de março de 2008
A queda do Império Romano
Após demonstrar - rápida e bisonhamente -, em um desenho, a fragmentação do Império Romano em decorrência das invasões bárbaras, o professor interrompe a explicação para atender a um aluno que levanta a mão para questionar a figura:
A - "Professor!"
P - "Sim."
A - "Isso é vasectomia?"
P - "Hum... não, não... vasectomia é outra coisa, vocês vão ver..."
sábado, 8 de março de 2008
Cidades Invisíveis
O senhor tem saudades de Itabira ainda hoje?
Tenho uma profunda saudade e digo mesmo:
no fundo, continuo morando em Itabira, através de minhas raízes
e, sobretudo, através dos meus pais e dos meus irmãos,
todos nascidos lá e todas já falecidos.
Estava lendo um livro "meio-reportagem-meio-biografia" do Drummond (ou sobre o Drummond?). Nele, encontrei uma entrevista feita com o poeta pelo jornalista Geneton Moraes Neto poucos dias antes da morte do poeta. É realmente uma entrevista interessante. Na verdade, infinitamente mais interessante pelo entrevistado do que pelas perguntas do entrevistador... mas, enfim...
Eu, que já gostava do mineiro, estou cada vez mais encantado...
Lá pelas tantas, dei de cara com a pergunta e a resposta que copiei acima. A sensibilidade com que Drummond explicou sua relação com Itabira me remeteu à minha relação com Dom Pedrito... sempre que releio o post sobre minha última viagem à "cidadezinha", escrito há mais de dois anos, quase sinto o mesmo que senti na época...
Com a resposta do Drummond e a minha relação com Dom Pedrito, me dei conta de que podemos ter várias
"cidadanias", assim como temos várias identidades... sou porto-alegrense [de onde - espero - não arredo o pé], mas também "sou" de Dom Pedrito... sou pedritense através do meu avô, através de algumas de minhas raízes...
quarta-feira, 27 de fevereiro de 2008
"Um Pequeno Poema"
tinha guardado na mala
um poema
e um conhaque
para a noite em que a felicidade
viesse para ficar ."
Antônio Navarro
em uma noite de 2003...
domingo, 24 de fevereiro de 2008
11 coisas para se fazer em Dom Pedrito
2. Comer um cachorro-quente e/ou tomar um café;
3. Conhecer o Museu Paulo Firpo;
4. Encontrar um cinema e assistir a um filme nele;
5. Conhecer gente nova;
6. Ler um livro;
7. Ver como os pedritenses falam de Dom Pedrito;
8. Conhecer um lugar e/ou um evento bacana;
9. Comprar um exemplar de um jornal local;
10. Ver uma vaca;
11 Conhecer a cidade de novo e me sentir mais perto das origens.
Data original: fevereiro de 2006...
Esperava por ela sentado em uma mesa em frente à janela. Para passar o tempo, fiscalizava o cardápio. Filés, sopas... e ela já estava dez minutos atrasada. Pensou em pedir um café enquanto esperava, mas ficou com medo de que ela não achasse cortês de sua parte. Cantarolou baixinho, e seus dedos acompanharam o ritmo, batendo sobre a mesa. Olhou em direção à porta no exato instante em que ela a cruzou. Estava linda. O vestido, muito simples, lhe dava um ar casual, e o cabelo lhe caía na testa de uma forma extremamente agradável.
Sorrindo, ele se levantou beijou-lhe a face e, com um movimento displicente e amável, indicou a cadeira para que ela se sentasse.
- Tudo bem, não tem problema. As coisas vão bem, e contigo?
- Tudo ótimo.
Enquanto os olhos dela percorriam o cardápio, ele a observava. Pensou em sugerir algo, mas não sabia muito do seu gosto; preferiu não arriscar.
- Posso deixar minha bolsa junto com a tua pasta?
- Claro, por favor.
- Claro, foi muito bacana...
- E tu gostou de me deixar plantado no cinema na quarta?!
- Ah?! Mas...
- Então, cala a boca e gosta disso!!!
Ficou ali, olhando para o sangue por alguns segundos até que se acalmasse. Depois, saiu assobiando o Bolero de Ravel...
Achadas pegadas de 20 mil anos
A descoberta ocorreu em agosto de 2003, no leito seco de um antigo lago por alunos nativos. Estima-se que o grupo tivesse de oito a dez pessoas. As pegadas mais curiosas são as que indicam alguém com uma só perna.
A penúria do resultado da caça aliada ao hálito forte de uma determinada bebida fermentada e a um surto de fúria feminina (na época, ainda incompreendido por nossos antepassados) desencadeou o inevitável.
Em um tempo em que não havia embalagens plásticas com bolinhas para serem estouradas, os ânimos acirravam-se com mais facilidade.
... e a briga fora feia...
Não devemos ser duros no julgamento dos tempos passados. As relações humanas (primitivas?) eram tão ou mais complicadas para eles do que o são, hoje, para nós. Definitivamente, atualmente temos mais informações do que eles. Mesmo assim, para alguns de nossos contemporâneos, certas coisas (como o surto de fúria feminina, por exemplo) permanecem tão incompreensíveis quanto naquele tempo.
Quando os representantes do frágil segmento masculino estavam prestes a chegar à curva do riacho, um dos mais jovens e impulsivos viu que uma das mulheres o observava. Então, fez o que, para eles, era considerado um grave insulto aos desafetos: andou em uma perna só...
... a briga fora mesmo feia...
Quando digo, clara, não quero dizer que ela fosse algo do tipo autêntico ou coisa que o valha. Ela era branca mesmo. Talvez não fosse tanto, mas seus cabelos (também muito claros) realçavam sua aparência. Bom, fato é que a viagem era longa o suficiente para que ele se acostumasse com aquela menina que lhe causara um estranhamento inicial. Mas, claro, foi um acostumar-se gradual: não bastasse o diferencial, ela vestia-se como se estivesse em casa, à vontade, com uma leve displicência. No fim, isso dava um toque de simpatia à figura, algo beirando à elegância, ou melhor, ao charme.
Na semana seguinte, ele a reparou de novo. E não por acaso. Descobriu que eles pegavam o ônibus na mesma parada. Ela apenas chegava em cima da hora, quase junto com a condução. Aliás, neste dia ela teve, inclusive, que correr para alcança-lo. Ele, um típico virginiano (e essa informação é importante que guardemos), achou curioso. Mas não chegou a estranhar; combinava com a charmosa displicência do visual. Como na semana anterior, ela estava à vontade, mas, ainda assim, um pouco mais "arrumada". Observa-la foi ficando mais interessante, e até mais excitante. A simpatia que via nela já se transformara em uma leve sensualidade. Até que, em determinada altura do trajeto, seus olhares se cruzaram; a cena durou poucos milésimos, mas o suficiente para que ambos desviassem o olhar com um pequeno constrangimento. Novamente, ele olhou na direção dela: novo contato. Pronto: agora havia uma ligação. Na mesma viagem, nasceu a paquera.
Como bom observador (lembremos que ele era virginiano), nosso camarada percebeu que ela cursava Engenharia de Alimentos. Estava escrito em sua pasta. Além disso, quando chegavam no campus universitário, ele a via entrar em um Centro Não-Sei-o-Quê de Engenharia de Alimentos. Isso mesmo, os dois iam para o mesmo lugar. Não preciso dizer que a idéia de que os dois pegavam o mesmo ônibus no mesmo local e ainda desciam juntos lhe pareceu divertidíssima. Imaginou como seria contar isso anos depois para os seus netos. Mas não nos apressemos. Havia muitos passos a serem dados até esse nível, e nosso amigo era metódico (virginiano!).
A esta altura dos acontecimentos, ambos já tinham se traído: os dois estavam interessados. Porém, talvez devido a alguma regra social infame, ele se sentiu na obrigação de dar o próximo passo. Mas não o fez. "Na próxima parada, eu falo com ela". "Já sei! Vou esperar que aquela senhora saia do seu lado. Então, eu vou e falo com ela." As paradas passavam e as senhoras saíam... mas ele não falava. Isso se repetiu por, pelo menos, mais duas semanas. No final do trajeto, ele pensava: "Sou um bunda mole!" Soltava um suspiro de resignação e ia tomar um café no bar antes que a aula começasse.
Em determinado momento desse relacionamento (platônico?), ele lembrou do ditado: "A melhor maneira de conhecer alguém é mexer no seu lixo." Sorriu e imaginou o que encontraria na lixeira de uma engenheira de alimentos. Cascas de banana, canetas e filtros de café... achou também que não seria difícil descobrir onde ela morava: ele era obstinado e sabia onde ela pegava o ônibus. Mais algumas semanas, e teria um verdadeiro dossiê sobre aquela menina que há algum tempo era uma ilustre desconhecida para ele. Mas, naquele dia foi diferente. Seus olhares os levaram a um beco sem saída, alguém teria de dizer algo. Não era possível que duas pessoas se olhassem tanto e não trocassem nenhuma palavra! Ele pensou consigo: "Chegamos ao limite... na semana que vem, eu falo com ela!"
Na semana seguinte, enquanto esperava o ônibus, pensava em uma maneira interessante de aborda-la. De preferência algum assunto que não fosse da linha "que tempo maluco, não?" No entanto, ele começou a ficar nervoso: ela não aparecia nunca! O ônibus já estava chegando à parada, e nada da engenheira de alimentos aparecer. A dúvida pairava em sua mente obscura: "Vou ou espero?" Pensou que ela poderia ter se organizado melhor dessa vez, afinal, seria o dia de sua primeira conversa.
O ônibus parou, as portas se abriram. Ele, corroído pela dúvida e pela aflição, foi o último a entrar... mas entrou. Entrou e falou baixinho, para si mesmo: "Sou um bunda mole!" Dito isso, ergueu a cabeça e viu a menina na metade da quadra, vindo em direção à parada. O ônibus arrancou. Ele ainda cogitou simular um ataque epilético para que ela tivesse tempo de alcançar o coletivo... mas não. "Definitivamente, sou um bunda mole", pensou. "Mas de semana que vem não passa!"
Na outra semana, ele esperou até o último instante. Diria para ela algo espirituoso, algo do tipo: "Perdeste o ônibus semana passada, heim..." Mas ela não apareceu, e ele entrou no ônibus. Pensou que ela poderia estar pegando o ônibus anterior ou o ônibus seguinte ao que sempre pegavam. Refletiu. Definitivamente, ela estava pegando o ônibus seguinte, era um tanto desorganizada para pegar o ônibus anterior. Nas semanas consecutivas, eles não voltaram a se ver. Ele, claro, começou a tecer considerações que diminuíssem seu sentimento de "bunda-molismo": "Ela andava muito à vontade e chegava em cima da hora para pegar o ônibus. Um pouquinho desorganizada. Nunca teria dado certo..."
Ela, uma engenheira de alimentos; ele, um virginiano...
Após muito refletir, decidiu-se enfim: criou o ano eleitoral na floresta. A idéia de eleição provavelmente foi fruto da leitura de livros franceses que existiam na Biblioteca Central da selva. Bom, fato é que, em princípio, a notícia caiu como napalm na selva. Houve uma confusão inicial - certamente, causada pelos boatos espalhados pelas Caturritas, que diziam que era tudo um teste de fidelidade para a Corte.
Mas não tardou muito, e os partidos começaram a se formar: conservadores, progressistas, radicais... os democratas-cristãos e os ecológicos, claro, não poderiam faltar. Houve até rumores de um possível golpe de Estado movido pelos anarquistas, mas, como eles não se organizaram, tudo tomou seu curso normal.
As notícias voam - que o digam as Caturritas -, e logo os animais das fazendas da região ficaram sabendo da corrida eleitoral. O Asno, que não era nenhum burro, viu nisso uma ótima oportunidade de fazer seu pé-de-meia: pegou a família e partiu para a floresta grande. Ofereceria seus serviços de transporte de campanha.
Multipartidarismo à parte, dois eram os principais candidatos: a Raposa e a Cobra. Por motivos naturais, eram os que mais entendiam de política. Os Coelhos, que eventualmente passavam pelo lugar, em poucos dias, transformaram-se no eleitorado mais numeroso. Mas, como é sabido, Raposas, Cobras e Coelhos não têm uma história muito amigável. Bom para as Corujas, que, há tempo, já eram referência na área de marketing político.
A Preguiça, por motivos nunca compreendidos, também resolveu lançar sua candidatura. Como uma espécie de terceira via, sua chapa seria: "Tranqüilidade para a Floresta". Apostava no slogan: "Não ao Capitalismo Selvagem". No entanto, sua vitória era improvável. Só venceria se desse uma grande zebra, pois sua campanha andava muito devagar.
Em poucos dias, placas eleitorais já tomavam conta de 90% das árvores da selva, e até alguns outdoors surgiram, da mesma forma que os trabalhos temporários - principalmente para os Macacos-Pregos. Porém, os animais, de uma forma geral, estavam descontentes: desde que começara a campanha, os serviços básicos pareciam ter sido esquecidos.
Mas o descontentamento durou pouco: o trabalho das Corujas era realmente muito bom. Por um conselho delas, a Raposa começou a construção de uma grande estrada que ligaria os extremos da floresta. Seria a civilização chegando ao lugar? Ponto para ela (a Raposa).
Por outro lado, a Cobra aparecia de hora em hora comendo folhas e frutas em rede nacional, ou melhor, rede florestal. Certamente, diziam os linguarudos dos Tamanduás, era uma jogada para atrair os votos dos Coelhos indecisos. Claro que estes caíram feito patinhos.
Mas a verdade é que a floresta estava dividida e, nos bares, os Gambás brigavam a todo momento. Foi quando uma comitiva da Raposa entrou em contato com o pessoal de campanha da Cobra.
Reunião a portas fechadas.
Naquela noite, a Cobra retirou a sua candidatura. A Preguiça, muito influenciável, achou que era uma boa idéia e fez o mesmo. As urnas, obviamente, escolheram a Raposa como a grande vencedora. O Leão, já cansado de tudo, nem passou a coroa para a sua sucessora e viajou para a França. Dizem à boca pequena que virou doutor e que está dando aulas em uma famosa universidade de lá.
Hoje, meses após a eleição, sabe-se o motivo daquela reunião entre as equipes da Cobra e da Raposa: foi feito um "acordão". Com a Raposa no trono, a Cobra recebeu a mais importante pasta ministerial: a Casa Florestal. Também se falou na possibilidade de garantia da vitória da Cobra nas próximas eleições.
Mas é possível que as coisas não sejam bem assim, pois, nas últimas semanas, a Raposa não pára de falar em reeleição...